uma verdadeira filha da Sunta. Sunta me pariu em casa numa madrugada de maio. Meu pai Francisco, galopava 30 Km pra registrar os filhos. Antes de chegar no cartório tomava um trago. Guardava os registros de nascimento numa caixa de sapatos, junto com a escritura da terra, promissórias de empréstimos e alguns contos de réis. Seus tesouros. Nunca vi minha certidão de nascimento. Naquele tempo, as coisas não precisavam ser escritas para serem verdadeiras. Na escola, descobri que devia responder a chamada quando chamavam Maria e que meu aniversário era em junho. Até aquele momento eu me conhecia por Marilda, nascida em maio.
Cresci tão distraída quanto nasci. Sentir a poesia já me basta. As poesia não precisa ser escrita pra ser verdadeira.
Em setenta, o êxodo rural expulsou muitos colonos das terras. Eu vim para Curitiba. Vivi em repúblicas de estudantes, trabalhei com informática e senti na pele o final da ditadura. Dias atrás, percebi que já tinha vivido mais de meio século, era mãe de 2 filhos e 5 livros. Ainda não me reconheço como Maria nem como poeta. Poesia é coisa divina e eu não sou santa nem Sunta.
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